quarta-feira, 17 de maio de 2017

Era uma vez uma Nebulosa

Não sou satélite
Não vou girar ao seu redor
Não vou corresponder às suas expectativas

Resolvi dar a mim mesma
Meu melhor papel
Me saí  pro ta go nis ta

Cinco sílabas
Cinco pontas
Uma estrela

Uma nova galáxia
Em expansão

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terça-feira, 9 de maio de 2017

O mundo é o meu lugar

Mudar de cidade é ficar dividida pra sempre. É preferir a dentista em uma, a depiladora na outra. É preferir o sapateiro em uma e o cabeleireiro na outra. É sentir falta dos restaurantes e dos cinemas daquela cidade quando se está nesta. É ficar cansada com o trânsito de uma e com a tranquilidade da outra. É sempre sentir falta dos amigos, querer dividir com eles o que acontece na cidade onde eles não estão. Fulana iria amar essa lojinha. Fulano iria amar esse bar. Queria trazer fulano pra comer esses doces nessa mesinha. Queria levar fulana pra conhecer tal e tal lugar. A família não pode estar sempre onde a gente está? Pena não poder ir naquela estreia. Pena perder aquele lançamento. Pena não ter uma casa com vários quartos pra abrigar todo mundo durante o festival. Queria piscar agora e estar lá. E de novo aqui. E que pena não poder ter todos eles e tudo ao alcance das mãos nos momentos importantes. Nos momentos desimportantes também. Só me alivia pensar que dessa forma o coração fica maior e mais povoado. E se for pensar assim, já começo a querer morar no mundo inteiro e ter listas infinitas de itens para amar. Uma vontade enorme de ter sempre pra onde ir. E outra de ter sempre alguém por quem voltar.

sábado, 22 de abril de 2017

Chá de hibisco e batom vermelho

Dei dois pulos na maca com as mãos cobrindo o rosto e o grito quando coloquei o Mirena. Cólica drástica em dois tempos. Um, dois. Meu médico me pinçou o colo do útero primeiro e foi por isso que sangrei uma gaze. A cólica traz uma sensação estranha de que o mundo deve girar mais rápido, de que há algo de errado com o tempo. Perguntei quando é que iria passar, mas não é possível dizer. Cada mulher funciona de um jeito. Cada mulher se adapta de um jeito. Ou não se adapta. O útero de uma das pacientes do meu médico expeliu um Mirena. Descobri com minha fisioterapeuta que seu útero expeliu dois. Um, dois. Bebi água sentada na maca pra ter certeza de que a pressão não iria me derrubar como quando tomei anestesia geral, a tal. Tudo sob controle, levantei com uma cólica menos forte mas persistente. Dá vontade de andar, de se mexer, de falar, numa tentativa meio desesperada de enganar a dor. Saí de lá conversando com a enfermeira e tive vontade de contar pra todo mundo lá fora que eu não era mais a mesma. Mito da caverna, só que não. Vencida essa nova etapa (mais um rito feminino pra coleção), driblamos a chuva, meu Mirena e eu. Esperamos o Cabify com um cachecol feito manta enrolado na minha cintura pra cortar o vento. Frio piora a dor, comprovei, umidade também, já dizia minha avó me pedindo pra usar chinelinho. "Mulher não pisa no gelado." Avisei meu amigo que iria passar na casa dele, alguns quarteirões mais longe, pra tomar um chá quente de hibisco. Queria agradar meu feminino e, hibisco, em todas as suas formas, com toda a sua cor e exuberância, agrada. Chá de hibisco também tem propriedades anti-inflamatória e analgésica, ou seja. O plano perfeito: tinha na bolsa um batom vermelho meio violeta da mesma cor do chá. Tomaria o chá com meu batom num ritual ao meu útero valente. No caminho, a ansiedade de querer acertar os ponteiros do mundo. Pra ter o que fazer e pra lembrar da infância, comi três balas sete belo que me ofereceu o motorista do Cabify. O motorista não soube porque eu reclamei do trânsito lento. Para ele aquele era um dia chuvoso e, apesar do engarrafamento, não havia nada de errado com o tempo.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Outros Carnavais

tô p&b. a blusinha laranja manchou. o sapato vermelho permanece guardado desde a última estreia. o blush não pega nas maçãs do rosto, voa como o pó que é. o colarzinho de missangas ficou preso na maçaneta da porta da casa antiga. batom vermelho só nas fotos do último carnaval. meu jeans preferido rasgou. lembro de uma calça como a minha desenhada no meu livro de inglês com legenda: torn. btw - escrevo ao lado - não são só as roupas. meus cabelos escuros mostram o rastro da primeira neve que vi cair em Berlim. faço rabiscos com minha caneta nanquim e formo letras finas nas folhas brancas. os espelhos da casa espiam na penumbra minhas camisolinhas claras enquanto elas desfilam (à la Vuitton), da cama branca aos sofás brancos, de nuit blanche em nuit blanche. as músicas islandesas que ouço, vibram nas paredes da casa e se misturam com as paisagens invernais. eu quase sou capaz de ver uma aurora boreal. mas não é sempre, não tem hora marcada. de olhos abertos no escuro, eu me vejo. nas alvoradas, durmo. tomo café sem leite. o resto do tempo tomo água transparente.

(escrito no dia 3 de março de 2013 às 23h27.)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Notas de uma noite de verão

Deixar os sentimentos serem como são as sementes-asterisco dos dentes de leão. Deixar que as afinidades venham e vão, feito os movimentos do vento, que trazem asteriscos até você e até mim e os levam para cima, para o alto, bem distante das mãos. Deixar que eles se deixem pousar nas mesas dos cafés cheios de plantas e de drinks com menta, nas escadarias gastas dos edifícios das grandes cidades, nas toalhas quadriculadas de piquenique que recortam os gramados dos parques, nos grandes salões e tablados esquecidos depois das grandes festas, dos pequenos shows. Deixar que os imprevistos encorajem novamente o seu voo a novos lugares. Deixar que brilhem no contra luz, apareçam e desapareçam conforme a paisagem, conforme a janela, conforme a vontade oculta escondida nas estradas da Natureza. Deixar que elas sejam como pequenas fadas que pontilham o ar com os nossos desejos. Deixar que sejam como as estrelas, cúmplices daqueles desejos que são de todos os mais íntimos. Deixar que a vida seja leve como os pequenos fios de seu delicado desenho. E se um dia os sentimentos pousarem em terra fértil, que eles floresçam como as sementes. Que eles amadureçam como uma flor de novos asteriscos, que, madura, faz nascer novos desejos. Desejos aptos a voar nas rajadas de vento futuras. Desejos aptos a invadir como dentes de leão a terra úmida e remexida do coração.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

domingo, 4 de dezembro de 2016

True blue

tô no azul tô no fio na ponte na corrente no fluxo no relógio corre a hora exata não perdi o fio da meada não voei amarrada não ancorei o barquinho não saltei pra nunca mais tô no céu no fio que conduz o olhar ao horizonte na linha imaginária que recolhe os suspiros dos que se deixam conduzir / não há fim pois não há início é tudo azul do mar ao céu o vento bate no rosto e desata o medo amarrado em nós / a menina que numa tarde roubou o livro do seu pai (um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir) é a mulher que carrega o símbolo do infinito no pescoço não há fim nem início uma leva à outra como o mar leva ao céu como o céu leva Amar