sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Rito

com gosto / arrancou agosto do calendário / tomou um banho de setembro / e foi dançar nua no bosque / em volta da fogueira / no seu bosque não há inquisidores / e / a grande fogueira não foi feita para os corruptos / fascistas / hipócritas / ou / para o preconceito / sobretudo / não foi feita para mulheres inocentes / o fogo é a chama da vida sempre acesa / é a chama que acende // o futuro nas mais brilhantes ideias / as calúnias que vem dos pactos dos homens / com o passado e suas hierarquias / são silenciadas pelos sons / das árvores ao redor / e do vento / ela dança nua / e ri enquanto dança / se mistura a cada um dos elementos / bem puta / bem bruxa // aos poucos / quanto mais ela ri / e mais ela dança / para ser bem clara / quanto mais / bruxa / e mais / puta / ela se sente / mais ela dissipa o ódio que emprestaram à estas palavras / e mais / o seu útero restabelece o amor que cicatriza todo o ódio proferido contra a sua natureza / ela é feita de água / ar / terra / ela é feita de luz *
* raio / estrela / e luar

domingo, 24 de julho de 2016

Baile

Meu primeiro eletrocardiograma deu erro. Eles chamaram de interferência. Pedi uma cópia com fins artísticos. Mas já haviam removido do computador.

Repetimos.

Meu segundo eletrocardiograma deu erro. Eles chamaram de alguma coisa do ramo direito. Mas não podia ser. A doutora acha que sou muito nova.

Repetimos.

Meu terceiro eletrocardiograma deu um terceiro erro. Mas eles chamaram de dentro da normalidade. Na lógica, o coração deu um baile.

Não foi necessário teste de esforço.

sábado, 9 de julho de 2016

Cidade invertida

Ontem, horas antes do calendário dar as boas vindas à lua nova, deixando para trás os dias luminosos vividos na festa literária, a estrada estava muito escura e me parecia tediosa e triste. No escuro sinuoso, o tempo fazendo suas curvas, eu ainda notava algumas luzes acesas ao meu lado, sobre as montanhas e entre elas. Olhando para a estrada à minha frente, de perfil para as luzes, me dei conta de que elas eram muito fortes para serem as luzes das casas ou das gambiarras elétricas embrenhadas no escuro. Então virei de frente para elas e demorei alguns segundos pra entender que havia passado tanto tempo me movimentando entre cidades grandes e cheias de nuvens, que já não me lembrava como era dar de cara com as estrelas. Tudo o que não era a estrada e as montanhas, e tudo o que não era escuro, era estrela. Muitíssimas lâmpadas de intensidades diferentes, desenhando uma cidade invertida. Uma cidade inteira de cabeça pra baixo que eu podia ver muito nítida. Foi de verdade a primeira vez que me senti muito acompanhada na vida. E foi como se eu encontrasse finalmente as duas peças invertidas do quebra-cabeça do mundo. O céu, uma cidade acesa, altamente povoada. E do outro lado o seu reflexo, onde eu me encontrava olhando para cima, na via entre as cidades, dentro do que seria o céu da cidade que eu via. Diante da possibilidade infinita que é poder ser guiada por aquele mapa imenso e brilhante, para poder percorrer com menos tédio e mais lâmpadas, as sinuosidades escuras dos fins e dos começos, das idas e das vindas. O céu é semelhante a uma cidade sem limites. E aqui, eu e você, e todos certamente, somos juntos um outro céu aberto, de corações reluzentes, mapeando novas constelações de possibilidades infinitas.

ps_ esse texto foi vivido no dia 3/fim da Flip 2016, escrito no dia 4 de julho.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Alright

Eu detesto ressonância magnética. Também detesto dizer que detesto, mas nesse caso não tenho saída. Da primeira vez, deduzi em poucos segundos: é uma rave ruim. Pior: você precisa ouvir todo aquele barulho totalmente espasmódico sem se mover. De tempos em tempos a voz de uma mulher, sem rosto (porque não consegui imaginar), provavelmente de avental branco (foi o que deu pra deduzir), me pedia pra prender a respiração por 20 segundos (eu contei). Troço chato, mala, ruim, verdadeiro horror. Piora, imagino, pra quem tem os nervos à flor da pele, tipo eu :/ A sorte dos meus nervos é que não tomo contraste. Deve ter sido o livro de André Gorz pra Dorine que me deu esse medo. Sou leiga no assunto e, portanto, fiel ao meu medo. Não quero, acho estranho, pode me pedir de joelhos, eu não aceito. Agradeci a mim por ter dito não ao contraste. Busquei toda a concentração do mundo pra pensar em coisas que me transmitissem alguma paz interior... até que a minha memória musical me trouxe de bandeja a salvação. Numa dessas repetições tóin óin óin óin óin, ela encontrou num fichário antigo, registros da mesma repetição no início de uma música que eu ouvi em momentos alegres desta vida. Plim!: a música alegre passou a tocar na minha cabeça todo o tempo do exame, me permitindo ignorar com mais propriedade os outros ton ton ton, fa fa fa, tóins e óins deprimentes. Agradeço imensamente ao Supergrass por ter me acompanhado nesse exame. Por ter me feito resistir imóvel na máquina trazendo as danças pra dentro de mim, e permanecer ali, quase sorridente, repetindo "feel alright" pra mim mesma, a cada refrão, até o fim.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

25 de fevereiro de 2016

Meus pais tinham exames oftalmológicos hoje à tarde, de modo que a minha vinda para o aeroporto foi totalmente por minha conta. Decidi sair bem mais cedo para garantir, peguei um táxi laranja na porta da casa dos meus pais em Curitiba e cheguei ao shopping Estação dois minutos antes do ônibus executivo chegar. Indo para lá o taxista me ofereceu o mesmo trajeto do ônibus até o aeroporto por 50 Reais, mas eu agradeci, decidi arriscar. Ele ainda esperou um tempo na vaga do shopping, perto de onde eu esperava o meu ônibus, na esperança de que eu, talvez, pudesse me arrepender. Mas isso não aconteceu e ele seguiu seu caminho sem mim, que naquele momento já estava sentada no ônibus pagando ao motorista treze reais. Agora, momentos mais tarde, estou exatamente onde gostaria de estar, prestes a decolar. E agora sim, já estou no céu. Voando para casa, antes do horário previsto. Como o ônibus chegou sem espera e, sem trânsito, em pouco tempo eu cheguei ao aeroporto, e como nenhuma fila me impediu de às 16h04 fazer o chek-in para o voo das 17h, aqui vou eu! Aqui vamos nós, de fato, furando as nuvens que hoje estão especialmente bonitas e diversas.
Coordenadas do meu voo: Gol, voo 1117 / de Curitiba - Afonso Pena 17h / para São Paulo - Congonhas 17h50 // Tempo de voo 42 minutos.
Daqui deste voo as nuvens mais parecem labirintos, alamedas, portais. Melhor voar durante o dia para ver tudo, chegar em São Paulo com tempo de arrumar a minha mala para o voo de amanhã cedo para o Rio. Minha vida é assim, há meses em que voo com frequência. Neste ano, acredito, devo voar bem mais. Só espero que essa turbulência que acaba de começar não acabe com a minha animação.
Costumava pensar -- isso na época que voei as primeiras vezes -- que as turbulências eram fadas e elfos, seres do ar, brincando comigo, com meu avião. E como eu também me considero um ser do ar, isso sempre me tranquilizou. Uma parte minha, porém, ainda gosta de ser apreensiva quando os pés levantam do chão. Acho que essa parte vai se fazendo mais presente à medida que a força da gravidade atua sobre meu corpo. Há uma lei misteriosa neste mundo, que diz que à medida que o tempo passa, ser leve é mais difícil. De qualquer maneira, eu devo ter algum tipo de conexão com os seres da Natureza, já que em muitos momentos difíceis da minha vida, a Natureza se revela muito colorida, quase mágica, e por segundos eu consigo vislumbrar o caminho certo de maneira clara, como se ele pudesse brilhar. Como a estrada aérea que acabou de se abrir e que vejo da janelinha do meu avião. Azul, azul e mais azul: o mar lá embaixo, o sol lá em cima, as nuvens no passado. Entramos num portal, conseguimos! Então eu já posso ser muito tranquila e aceitar a água e os biscoitos que a aeromoça trouxe até mim. Não é preciso mais. A simplicidade me encanta e eu desfruto deste voo feliz por estar aqui. Vejo passar no meu horizonte fictício -- já que tudo é azul -- um navio vermelho que brilha com a luz do sol. E eu só posso confiar na vida que é maravilhosa comigo e hoje me deu a sorte de estar bem aqui, dentro do tempo, atravessando portais.

p.s.: o táxi branco que me conduziu do aeroporto até a minha casa em Perdizes, pela Avenida Brasil, me trouxe fluindo, voando, sem os trânsitos normais de uma quinta-feira às 18h. Deduzi que a felicidade que vêm das coisas simples, ou o contentamento -- como quisermos chamar -- antecipa as horas e abre os caminhos pra gente poder chegar ao nosso destino, sem precisar frear.

domingo, 19 de julho de 2015

Matei meu agressor

O expulsei da minha vida. Seus tentáculos não se agarram mais a mim. Não sugam mais o meu sangue em forma etérea (os perfumes voltaram a possuir as flores graças ao éter que deixou de ser roubado -- voltamos a ter brilho). Seus tentáculos não deixam mais hematomas na minha alma. Não povoam de mangues a minha aura. Não trilho mais o caminho que leva ao seu castelo escuro. Não me perco mais nas ilhas de Estocolmo. Não aceito as migalhas da sua fortuna, os miasmas da sua desventura. Não me diminuo mais para caber no seu coração atrofiado. Não peço desculpas por não ser a sua continuação mais perfeita. Desertei o seu mundo das ideias, fugi da caverna que sempre foi seu mundo real, boicotei o seu banquete. Estou livre dos seus lampejos de ira, dos vulcões dos seus traumas, choques, tremores. Enquanto você definha sentindo falta do meu sangue, eu me fortaleço em reconexão com o Cosmo -- aquilo que foi, que é e que será. Danço nua ao redor de uma fogueira com minhas melhores amigas.