sábado, 22 de abril de 2017

Chá de hibisco e batom vermelho

Dei dois pulos na maca com as mãos cobrindo o rosto e o grito quando coloquei o Mirena. Cólica drástica em dois tempos. Um, dois. Meu médico me pinçou o colo do útero primeiro e foi por isso que sangrei uma gaze. A cólica traz uma sensação estranha de que o mundo deve girar mais rápido, de que há algo de errado com o tempo. Perguntei quando é que iria passar, mas não é possível dizer. Cada mulher funciona de um jeito. Cada mulher se adapta de um jeito. Ou não se adapta. O útero de uma das pacientes do meu médico expeliu um Mirena. Descobri com minha fisioterapeuta que seu útero expeliu dois. Um, dois. Bebi água sentada na maca pra ter certeza de que a pressão não iria me derrubar como quando tomei anestesia geral, a tal. Tudo sob controle, levantei com uma cólica menos forte mas persistente. Dá vontade de andar, de se mexer, de falar, numa tentativa meio desesperada de enganar a dor. Saí de lá conversando com a enfermeira e tive vontade de contar pra todo mundo lá fora que eu não era mais a mesma. Mito da caverna, só que não. Vencida essa nova etapa (mais um rito feminino pra coleção), driblamos a chuva, meu Mirena e eu. Esperamos o Cabify com um cachecol feito manta enrolado na minha cintura pra cortar o vento. Frio piora a dor, comprovei, umidade também, já dizia minha avó me pedindo pra usar chinelinho. "Mulher não pisa no gelado." Avisei meu amigo que iria passar na casa dele, alguns quarteirões mais longe, pra tomar um chá quente de hibisco. Queria agradar meu feminino e, hibisco, em todas as suas formas, com toda a sua cor e exuberância, agrada. Chá de hibisco também tem propriedades anti-inflamatória e analgésica, ou seja. O plano perfeito: tinha na bolsa um batom vermelho meio violeta da mesma cor do chá. Tomaria o chá com meu batom num ritual ao meu útero valente. No caminho, a ansiedade de querer acertar os ponteiros do mundo. Pra ter o que fazer e pra lembrar da infância, comi três balas sete belo que me ofereceu o motorista do Cabify. O motorista não soube porque eu reclamei do trânsito lento. Para ele aquele era um dia chuvoso e, apesar do engarrafamento, não havia nada de errado com o tempo.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Outros Carnavais

tô p&b. a blusinha laranja manchou. o sapato vermelho permanece guardado desde a última estreia. o blush não pega nas maçãs do rosto, voa como o pó que é. o colarzinho de missangas ficou preso na maçaneta da porta da casa antiga. batom vermelho só nas fotos do último carnaval. meu jeans preferido rasgou. lembro de uma calça como a minha desenhada no meu livro de inglês com legenda: torn. btw - escrevo ao lado - não são só as roupas. meus cabelos escuros mostram o rastro da primeira neve que vi cair em Berlim. faço rabiscos com minha caneta nanquim e formo letras finas nas folhas brancas. os espelhos da casa espiam na penumbra minhas camisolinhas claras enquanto elas desfilam (à la Vuitton), da cama branca aos sofás brancos, de nuit blanche em nuit blanche. as músicas islandesas que ouço, vibram nas paredes da casa e se misturam com as paisagens invernais. eu quase sou capaz de ver uma aurora boreal. mas não é sempre, não tem hora marcada. de olhos abertos no escuro, eu me vejo. nas alvoradas, durmo. tomo café sem leite. o resto do tempo tomo água transparente.

(escrito no dia 3 de março de 2013 às 23h27.)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Notas de uma noite de verão

Deixar os sentimentos serem como são as sementes-asterisco dos dentes de leão. Deixar que as afinidades venham e vão, feito os movimentos do vento, que trazem asteriscos até você e até mim e os levam para cima, para o alto, bem distante das mãos. Deixar que eles se deixem pousar nas mesas dos cafés cheios de plantas e de drinks com menta, nas escadarias gastas dos edifícios das grandes cidades, nas toalhas quadriculadas de piquenique que recortam os gramados dos parques, nos grandes salões e tablados esquecidos depois das grandes festas, dos pequenos shows. Deixar que os imprevistos encorajem novamente o seu voo a novos lugares. Deixar que brilhem no contra luz, apareçam e desapareçam conforme a paisagem, conforme a janela, conforme a vontade oculta escondida nas estradas da Natureza. Deixar que elas sejam como pequenas fadas que pontilham o ar com os nossos desejos. Deixar que sejam como as estrelas, cúmplices daqueles desejos que são de todos os mais íntimos. Deixar que a vida seja leve como os pequenos fios de seu delicado desenho. E se um dia os sentimentos pousarem em terra fértil, que eles floresçam como as sementes. Que eles amadureçam como uma flor de novos asteriscos, que, madura, faz nascer novos desejos. Desejos aptos a voar nas rajadas de vento futuras. Desejos aptos a invadir como dentes de leão a terra úmida e remexida do coração.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

domingo, 4 de dezembro de 2016

True blue

tô no azul tô no fio na ponte na corrente no fluxo no relógio corre a hora exata não perdi o fio da meada não voei amarrada não ancorei o barquinho não saltei pra nunca mais tô no céu no fio que conduz o olhar ao horizonte na linha imaginária que recolhe os suspiros dos que se deixam conduzir / não há fim pois não há início é tudo azul do mar ao céu o vento bate no rosto e desata o medo amarrado em nós / a menina que numa tarde roubou o livro do seu pai (um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir) é a mulher que carrega o símbolo do infinito no pescoço não há fim nem início uma leva à outra como o mar leva ao céu como o céu leva Amar

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Uma grande manhã como todas as outras

Em uma manhã como todas as outras, ela passou a acreditar nela mesma. Passou a respeitar os relâmpagos cardíacos que marcavam o nascimento dos seus sentimentos. Aprendeu a olhar sem filtro para eles, sem óculos escuros. Aprendeu a suportar a sua luz sem lágrimas nos olhos. Os relâmpagos justificavam a sua presença eletrizante, quando, muitas vezes, ela se colocava em sua própria defesa. Há uma conexão muito bela, própria dos movimentos da arte, entre a ideia e o sentimento. A maneira como eles se relacionam, a maneira como essas conexões acontecem, é o que diferencia as pessoas, o que faz com que elas existam. Pode, ao que tudo indica, ser o princípio desse acontecimento. Uma grande ideia provoca relâmpagos e gera fortes sentimentos. Uma grande ideia é igual a todas as outras, mas é uma ideia que, por algum motivo, atravessa o seu habitat cerebral e, em grande cintilância, corre do céu ao chão do coração provocando arritmias ou sustos. Um grande suspiro pode apaziguar a sensação de dor, quando um grande sentimento sai de seu habitat cardíaco e atravessa seu útero como um raio. Um grande sentimento é igual a todos os outros, mas é um sentimento que, por algum motivo, permanece nela e, dentro dela, se transforma. E se torna cada vez maior e mais luminoso, até que ela dê a luz aos berros, muito dona de si e de seu próprio corpo selvagem. Quando isso acontece, alguém de muita sorte, leva ao mundo a notícia. Entre aspas, que também significa dizer em voz alta. Hoje, uma mulher, fez nascer a sua ideia.  

domingo, 13 de novembro de 2016

Mulheres Aladas

Descobriu que os xales foram criados para enfeitar as sombras das mulheres que percorriam trilhas durante a noite. Assim elas abriam caminho em outros mundos. Além das folhas secas que corriam com o vento, nenhuma outra entidade ousava persegui-las. Os deuses das sombras acreditavam que as mulheres de xales tinham asas e eram anjos.