terça-feira, 6 de março de 2018

Primeira página

Planeta Terra, 2018. Aqui e agora. Nenhum lugar antes ou depois. Este lugar, esta pessoa -- eu mesma, esta vida, este amor, este caderno. Nada diferente. Tudo exatamente como é.

Ano que vem, muda a data.

fill in the blanks

tô p&b. a blusinha laranja manchou. o sapato vermelho permanece guardado desde a última estreia. o blush não pega nas maçãs do rosto, voa como o pó que é. o colarzinho de missangas ficou preso na maçaneta da porta da casa antiga. batom vermelho só nas fotos do último carnaval. meu jeans preferido rasgou. lembro de uma calça como a minha desenhada no meu livro de inglês com legenda: torn. btw - escrevo ao lado - não são só as roupas. meus cabelos escuros mostram o rastro da primeira neve que vi cair em Berlim. faço rabiscos com minha caneta nanquim e formo letras finas nas folhas brancas. os espelhos da casa espiam na penumbra minhas camisolinhas claras enquanto elas desfilam (à la Vuitton), da cama branca aos sofás brancos, de nuit blanche em nuit blanche. as músicas islandesas que ouço, vibram nas paredes da casa e se misturam com as paisagens invernais. eu quase sou capaz de ver uma aurora boreal. mas não é sempre, não tem hora marcada. de olhos abertos no escuro, eu me vejo. nas alvoradas, durmo. tomo café sem leite. o resto do tempo tomo água transparente.

(Escrito há cinco anos, dia 6 de março de 2013.)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

meu poema é pra você.

em uma
xícara de café
faço correr a última gota;
viro a xícara
em minha direção
como se quisesse beber.

durante o movimento
vejo um buda
que se transforma
em uma mulher
meio princesa
meio antiga;
uma mulher
de vestido dourado.

pense na forma
de um buda
e me diga se
a gota de café
não fez um
passeio completo

eu digo;

algumas coisas
na vida
a gente descobre
não por um triz
nem por um fio
mas;
por uma última gota.

todas as imagens do mundo
foram criadas
e-s-p-e-c-i-a-l-m-e-n-t-e
para quem as viu;

você me vê?

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Da cor do mar

Fez seis anos, no Carnaval, que a luz da vida apagou dentro dela. Muitas vezes esta luz apaga antes do blackout que prenuncia o fim. Algumas vezes parece que não acende mais, mas a chave vira e a peça continua. Algumas vezes olhamos na direção daquilo que nos tira o brilho e, por hábito, não acreditamos que seja possível transformar o que não foi bom, o que não deu certo.

Algumas vezes sentimos o peso daquilo que não deu certo antes de nós. Algumas vezes, o coração sozinho, não dá conta de combater a morte que levamos, por descuido, para dentro. Algumas vezes não entendemos o suficiente de eletricidade e, no escuro, por orgulho ou pela falta, deixamos de pedir ajuda. E, complexas, esquecemos de olhar a parte esquecida que precisa de atenção.

Outras vezes, mais adiante, a gente passa a querer olhar para o brilho das coisas que ficaram esquecidas. E lembrar das coisas boas, das coisas que têm a cor do mar do Nordeste, das coisas que deram certo. Intuir que, das escolhas da vida, a principal, é escolher viver, viver bem, virar a chave da tristeza, ser feliz e iluminar. E intuir que dentro da escolha iluminada está o pacto de manter aberto o coração magoado, deixar sempre o peito aberto para dar espaço ao amor e à cura que dele irrompe.

Depois a gente passa a ter vontade de, no meio do dia, no meio da noite, deixar a luz da consciência acesa para ver com os olhos bem atentos, a poeira dos objetos de cena, toda a quantidade de cenários esquecidos, de peças nunca mais encenadas. Ver os objetos em desuso que mantivemos guardados para ter controle sobre algo. A gente passa a ter coragem de permitir que tudo seja levado pelo mar, de aceitar o vazio da limpeza, de descobrir a possibilidade infinita de recomeçar, descobrir que ela vem de dentro, porque já entendemos que quando nada mais resta, restamos nós mesmas.

Nesses dias de luzes bem acesas, encontrei seus olhos cor de mar num porta-retrato. Quando a distração ao redor terminou, parei para olhar com mais cuidado e profundeza em direção ao brilho. Vi raios de sol incidirem sobre o mar, me despi com a naturalidade praiana que ela emanou em vida e me pus a pensar sobre o que é natural. É natural que a gente se inspire por afinidade ou por apego em algumas daquelas que estiveram aqui antes. É natural a gente querer desistir. É natural que não seja óbvio ou fácil. É natural a gente se largar ou mesmo se perder. Está além do natural transcender.

Quem olha para o mar vez ou outra pode se lembrar de que viver não é preciso e navegar sim. Navegar é preciso! Oscilo entre o porta-retrato e o mar que me deu a coragem de olhar para coisas tão grandes e profundas, de olhar novamente para minha tia e agradecer o caminho percorrido por ela. E, através dela, vislumbrar o caminho de todas as outras que se sentiram sufocadas como nós. Quero ir além do natural, digo a mim mesma. Rezo para todas elas.

E mergulho por cenários carregados pelo mar muitos anos antes, objetos que me levam a entender as dificuldades destas mulheres, e me levam a querer pisar o território desconhecido da maioria delas, estrelas do mar desta constelação ancestral. Ao território não explorado da auto-estima, da valorização, da confiança plena, da auto-realização, ao território não explorado da felicidade, eu me dirijo. Todos os caminhos trilhados por elas me dão força, retiram das minhas profundezas as minhas capacidades perdidas, abandonadas, trancafiadas, esquecidas.

Sou Vênus, nascida da espuma, rompendo a concha. Recupero o fôlego depois do mergulho e piso com delicadeza o novo solo. Vejo que comigo estão todas elas, desnudas e libertas, do outro lado da gruta, da caverna, da ponte, da janela, do castelo, do rio, do monte. O lado da felicidade.

Quando uma se ilumina, iluminam-se todas elas.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Asas do Desejo

*

Os sentimentos e os conceitos das palavras, precisam ter certa itinerância. Nada pode ser muito fixo, nem os sentimentos podem ser imutáveis. O conceito de casa, por exemplo, tem lona de circo. Depende do lugar e independe do lugar. Para amar um lugar mais que outro é preciso ter ido a um e ter ido a outro. Para amar todos os lugares é preciso ter conhecido o bastante. O amor é um sentimento itinerante por princípio. Não está apenas dentro dos corpos itinerantes, mas em todos os lugares. Ele entra se deixamos aberta, no nosso conceito de casa, a lona de circo. Colore tudo por dentro, acende as luzes do picadeiro, faz rir e dá medo. Para amar é preciso ter sido criança, ter usado fantasia ou ter algo de lúdico dentro. Para sorrir e ter medo é preciso ter coragem de colocar a vida ao vento, a casa em movimento, como o corpo que se move carregando o coração lá, aqui dentro. O medo também é itinerante, como os leões dos circos, como os signos e como as constelações. Quem é que vai dizer que o sol não está se movendo com todas as outras estrelas para um lugar diferente de tudo o que conhecemos? Eu acredito que tudo no mundo pode ser um outro universo. Acredito que tudo pode ser um grande circo com atrações e números, cartolas e coelhos, cartas na manga e que nada disto está acabado, como os palhaços nunca estão acabados e os bailarinos nunca estão satisfeitos. Eu acredito que nossas almas, como o amor, são itinerantes por princípio e conhecem e amam lugares longínquos e estranhos, muito mais longínquos e estranhos do que um dia imaginou um astronauta, um artista, mágico ou alquimista. Eu acredito que minha alma possa amar um lugar totalmente desconhecido, se puder adentrar as lonas abertas dessa outra realidade impensada, como são os planetas onde nossas naves não estiveram. Assim como amei vários lugares distintos, as cidades e os países que adentrei até hoje, as lonas de circo das casas que, como ao amor, me receberam. Cada lugar fora de mim desperta um lugar dentro de mim. Assim eu descubro que sou tudo e que sou grande. Graças ao inacabado, os conceitos das palavras se ampliam. Graças ao movimento, o coração bate e os sentimentos podem ser gigantes ou infinitos. Somos por princípio seres itinerantes. Criamos tecnologias e engrenagens para mudar de endereço, para abrir as lonas de circo das casas, para que o amor, com riso e medo, revele o quanto estamos inacabados e o quanto somos grandes ou estranhos e podemos ser longínquos.

*Guardo dentro de mim a criança que viu as piruetas dos trapezistas com os olhos semi abertos. Sonho que sou livre, que me balanço num trapézio com asas de anjo como no filme do Win Wenders. Choro quando tenho vontade, amo muito e tenho pouco medo. Sonho que o mundo é um circo à caminho de um novo universo para armar a sua lona e iluminar com novos astros o seu picadeiro. E porque sempre tive sonhos, agora escrevo.

Começa assim meu pensamento:

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Navegar

Azul, azul. Barquinho pra bem longe, lugar nenhum. Aqui se faz nuvem de escalar -- ao azul! Navegar não é preciso. Estica o braço e finda as férias no exílio. A cidade natal faz as vezes de madrasta, porém. Tem sempre a garrafa azul do refrigerante de gengibre na mesa. A minha dose é o copinho de nutella. Aquela gota que falta (vírgula) transbordo.

(Escrito em 17 de dezembro de 2013.)

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Sempre em frente

Confúcio, amor:
Quando vires um homem bom, tenta imitá-lo; quando vires um homem mal, examina-te a ti mesmo.
(Também troco homem por mulher na mesma frase pra ver como fica.)

Eu sempre penso: todos os males do mundo nos habitam. Para olhar no espelho é preciso coragem. Não adianta apontar o dedo para os outros, as outras. Encarar a pior parte de nós e transformar o pior em melhor através do amor (assim como uma mãe aceita ou educa um filho) é o que faz mudar o mundo. A revolução pelo amor e não pela revolução.
Para entender a transformação é preciso reconhecer o feminino em seu arquétipo de mãe. Aquela que cuida, que ama filhos diferentes, que é capaz de criar e educar com o mesmo amor outros filhos que não os seus. Cada um de nós precisa se pegar no colo. Somos as duas partes, dentro de nós mora uma criança abandonada e uma grande mãe.
Se um dia alguém te disser que a revolução é feminina, acredite. Não implica em isolar os homens, o feminino está nos homens, nas mulheres, está em todos os que nascem. A revolução mora nos filhos e nas filhas de todas as mães. A revolução é a grande mãe que nos ama e nos habita.
A humanidade está aos berros, feito criança faminta, porque ainda não incorporou o amor incondicional por sua própria essência. Não se deixou ninar pela mãe que cada um passa a ser para si próprio depois de todos os ritos de amadurecimento.
Precisamos de ritos, crianças, precisamos de amor, amores, -- tudo a seu tempo -- precisamos crescer, precisamos ser grandes.

Vamos, enfrente.