domingo, 19 de julho de 2015

Matei meu agressor

O expulsei da minha vida. Seus tentáculos não se agarram mais a mim. Não sugam mais o meu sangue em forma etérea (os perfumes voltaram a possuir as flores graças ao éter que deixou de ser roubado -- voltamos a ter brilho). Seus tentáculos não deixam mais hematomas na minha alma. Não povoam de mangues a minha aura. Não trilho mais o caminho que leva ao seu castelo escuro. Não me perco mais nas ilhas de Estocolmo. Não aceito as migalhas da sua fortuna, os miasmas da sua desventura. Não me diminuo mais para caber no seu coração atrofiado. Não peço desculpas por não ser a sua continuação mais perfeita. Desertei o seu mundo das ideias, fugi da caverna que você chamava de mundo real, boicotei o seu banquete. Estou livre dos seus lampejos de ira, dos vulcões dos seus traumas, choques, tremores. Enquanto você definha sentindo falta do meu sangue, eu me fortaleço em reconexão com o Cosmo. Danço nua, ao redor de uma fogueira, com minhas melhores amigas.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O rascunho da mudança

mudei. não sou mais a mesma de antes. curiosamente ainda consigo me reconhecer no espelho. mas, um passo adiante, me olho no espelho sem me identificar com a imagem. não é lá que me encontro. me saúdo quando esbarro comigo no hall dos apartamentos, no salão dos restaurantes, escovando os dentes antes de dormir ou fazendo a maquiagem antes de sair de casa. fora dali, salvas todas as definições que dei a mim mesma (ou que me foram dadas por direito ou por descuido), eu me encontro no meu próprio corpo: os pés no chão, a cabeça no alto e o coração no meio de tudo. bem aqui. de onde nasce uma alegria, uma vontade e uma coragem sem freios. o amor, eu encontro em silêncio, relaxada em mim mesma. tá mais fácil dizer eu te amo.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Cor do céu, de anil

Eu lembro bem do dia em que ganhei um balão de gás hélio. As crianças sempre querem um balão de gás hélio pelo máximo de tempo que puderem ou até ele não poder voar mais para serem delas para sempre. Eu ganhei um. Não me lembro da cor, mas lembro que era difícil andar com ele sem olhar pra ele o tempo todo. Por isso, alguém me dava a mão, para que eu pudesse seguir maravilhada olhando pra cima, sem tropeçar, trombar com alguém ou cair durante o passeio. Depois de passear com meu balão durante um bom tempo, segura, com seu fio bem amarrado ao meu pulso, eu o carreguei até o carro comigo. Eu, levando o meu balão pra casa, para ser para sempre meu.
A casa dos meus sonhos e dos meus pesadelos, foi durante muito tempo representada pela casa da minha vó materna. Quando a minha casa pegava fogo, quando o incrível Hulk me perseguia e eu me escondia debaixo da cama durante o sonho, a minha casa era a minha casa mas era igual à casa da minha vó. Quando eu dormia na casa da minha vó materna e abria os olhos pela manhã, meu primeiro sentimento era de estranhamento, precisava sempre constatar: "dormi em outra casa, ah, bom!"
A casa da minha vó existe até hoje, do mesmo jeito. Muita coisa mudou lá dentro, muito aconteceu nessa casa. Algumas situações se comparam a sonhos, outras a pesadelos. Eu frequento a casa da minha vó desde que nasci até hoje. Hoje tenho menos pesadelos, e também sonho menos. Nos sonhos, a minha casa já mudou bastante, assim como mudei de casa muitas vezes conforme as rajadas de vento. Alguns ventos se comparam a sonhos, outros a pesadelos.
No dia que ganhei o meu primeiro balão de gás hélio, o carro seguiu com meu balão amarrado ao meu pulso, até a casa da minha vó. Alguém me ajudou a sair do carro, provavelmente a mesma pessoa que me ajudou a amarrar o balão ao pulso, e eu voltei a andar maravilhada olhando para cima. Por isso, me deram a mão. Na varanda de acesso à entrada da casa, prestes a passar pela porta, um vento forte bateu e o meu balão passou sozinho pelos arcos da varanda, sem encontrar nenhuma coluna como obstáculo, nem bater no teto. Escapou ileso, foi valente. Descobri que era a minha vó quem me dava a mão quando tudo aconteceu. E não lembro de ter chorado na hora, talvez depois. Lembro de ter ficado perplexa olhando pro céu até o meu balão sumir. Aquele balão que era tão meu a tão pouco tempo, lá no céu, um lugar que parecia ser tão seu.
Entendi algumas questões profundas da vida naquele momento. Quando eu, bem silenciosa e atenta, vi o meu balão sumir. E, depois disso, perdi muitas outras coisas na vida. Sempre fico assim, diante das perdas: perplexa, olhando para aquilo que até pouco tempo era tão meu, parecer ser tão do céu. E de olhar silenciosa e atenta, compreendo coisas que não consigo explicar. As rajadas de vento chegam quando a gente menos espera. Os nós se desatam quando a gente menos espera. E a imagem do balão que foi embora, fica guardada para sempre.
Aconteceu, porém, que no dia 5 de janeiro de 2015, entrando na casa da minha vó pela porta da frente, atravessando a mesma varanda, encontrei outro balão de gás hélio, no mesmo lugar onde parei muitos anos antes, para ver o meu balão sumir. A cuidadora da minha vó, encontrou um balão perdido na rua e o levou para casa, mas não o levou pra dentro. Em vez disso, ela resolveu amarrar o fio do balão perdido, ao banco da varanda. Era um balão de menina, como o meu balão que partiu.
Me lembrei de um poema de Bulat Okudzhava, do livro Poesia Soviética, que contava brevemente a vida de uma mulher, partindo do fato de que, quando era uma menina, o seu balão fugiu. Por lembrar desse poema, tive um insight de sorte. Meu balão voltou a tempo, com um recado lá do céu: não é preciso lamentar se alguma coisa um dia partiu. Tudo há de partir. Tudo há de voltar. Para o céu, não há fim.
A cuidadora da minha vó não sabia o que estava fazendo quando amarrou o meu balão de volta no mesmo lugar em que o perdi. Não sabia que estava levando o balão perdido de uma menina, de volta para outra. Eu soube assim que o vi na varanda, porque isso era algo que cabia a mim. Depois de reencontrar o meu balão, eu o desamarrei e fiquei olhando para ele perplexa.

Entendi algumas questões profundas da vida naquele momento. Quando eu, bem silenciosa e atenta, vi o meu balão voltar. E, depois disso, ganhei muitas outras coisas na vida. Sempre fico assim, diante dos presentes: perplexa, olhando para aquilo que até pouco tempo parecia ser tão do céu, ser tão meu. E de olhar, silenciosa e atenta, compreendo coisas que não consigo explicar. As rajadas de vento chegam quando a gente menos espera. Os nós se atam quando a gente menos espera. E a imagem do balão que retorna, fica guardada para sempre.

*

A menina chora -- seu balão fugiu.
Tentam consolá-la, mas o balão sumiu.

A mocinha chora -- sua mão ninguém pediu.
Tentam consolá-la, mas o balão sumiu.

Mulher feita chora -- o marido a traiu.
Tentam consolá-la, mas o balão sumiu.

Vovozinha chora -- a vida se esvaiu.
O balão voltou, cor do céu, de anil.

Bulat Okudjáva (como o nome se desenha no livro).

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Era uma vez uma atriz que

Nos dias de ensaio, escreveu nos braços com caneta esferográfica.
Adormeceu -- os braços deitados sobre fronhas brancas.
Agora,
Só lhe resta dormir feliz sobre travesseiros carimbados.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

être en minuscules

antes tarde do que nunca. bailarina tardia, menininha aos trinta e, aprendendo a andar. valsar (como aos 15 anos lhe ensinou seu avô) sem olhar para o chão. tentando firmar os pés para flutuar. demi plié. relevé. be a bá. garota aos trinta e, se apoiando na barra. (medo de subir, gente. medo de cair, gente. medo de vertigem, quem não tem?) aprendendo a melodia de cór -- ouvir para se entregar. entendendo que é possível equilibrar as pontas dos pés na frase melódica, saltar de frase em frase, girar entre uma e outra. entendendo que as pernas e os braços gravitam porque existe um centro, existe um sol. mulher à la Degas, reproduzindo o movimento fluido, dando permissão às mãos para que se aproximem e se afastem do corpo e determinem a direção do olhar. bailarina é um pretexto para as pinturas dizerem: "a vida flui". trinta e, e a transpiração é o coração em sintonia com o desejo. a determinação de um momento. respiração de mãos dadas com a música. e o corpo se beija, se expande, o corpo dança. emana o que há de melhor dentro dele e colhe o que há de melhor fora dele -- para acolher em si. lá, sol, fá, mi.

sábado, 17 de janeiro de 2015

A realidade que nos abraça

O ouvido colado ao travesseiro intensifica o barulho da chuva e do vento lá de fora. Escuto, ao mesmo tempo (iPhone aceso imerso no quarto escuro), a música da banda Ruído/mm: Penhascos, Desfiladeiros e Outros Sonhos de Fuga. Duas horas antes, o ruído dos foguetes da vizinhança acompanham as palmas do final da palestra de física quântica. Uma hora antes da palestra, o céu despenca em Curitiba em uma tempestade semelhante a esta que agora preenche meu silêncio de ruídos por milímetro cúbico. Quando a chuva diminui, meia hora antes da palestra, eu entro num táxi e vou até a Agência 433 na Nilo Peçanha. Chego lá sem me molhar e sem saber que irei embora líquida e tempestuosa feito o fim do dia. Imersa nas tempestades advindas da palestra, porém, não me representam os tons cinzentos. No banheiro, numa pausa entre meus pensamentos e as palavras ouvidas, a luz passa pelo prisma e decanta suas ondas em cores. A água escorre sobre as mãos -- me vejo: os olhos escorrem em mímese, incandescentes. A natureza em forma bruta escapa de todos os seus canais. Menstruo. Choro. Renasço. E a realidade, que sempre me pareceu estranha, me guia de volta ao meu lugar; desço as escadas até a cadeira e meu caderno de anotações apoiado na mesa. Partícula sobre partícula. Escrevo o que acabei de ouvir sem imaginar que meu ato naquele exato momento já estivesse reduzido à sua insignificância. Escrevo: "Os pensamentos e as palavras não transcrevem a realidade. A vida é tridimensional. É mágica." *

*Não é o fim. Este ensaio não tem fim.

Palestra de Física Quântica com Gabriel Guerrer /30 de setembro de 2014.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015